Auschwitz – O ânus do mundo II

As cores suaves escondem em Auschwitz I o negro passado que ali se viveu há quase 75 anos. O tijolo dos blocos, o chão de terra, as árvores despidas, o céu azul e a neve são ansiolíticos sem efeito, mal se entra no Bloco 5.

Bloco 5

Este é o único espaço do campo que mais se pode assemelhar a um museu em qualquer outra parte do mundo. Entrar neste edifício foi reconfortante. O corpo que gelava lá fora sentiu por escassos minutos que ali sim, estava-se bem melhor. O aquecimento estava ligado e as luvas já podiam ser despidas para que os apontamentos, que eu insistia em tirar ao longo da visita, ficassem mais legíveis. A tinta da esferográfica que tinha aos poucos congelado voltou a sair num azul visível. Infelizmente, para anotar números que preferia não ter visto ou ouvido.

Aquele não era nenhum dia de aulas, mas ouvi e vi como se de uma lição se tratasse. 400 mil judeus húngaros sucumbiram nas câmaras de gás de Birkenau em apenas dois meses. E 300 mil polacos tiveram o mesmo destino (não foi por nada que Hitler lhe chamou a Solução Final!). Ao lado do painel que indicava o top 10 das nacionalidades mais mortas, um jarro fechado com cinzas. Nunca tinha visto cinzas humanas, mas posso dizer que são iguais às cinzas de dezenas de cigarros, mexidas e remexidas. Esta descrição não é insensível. Simplesmente foi-me completamente impossível conceptualizar que aquilo eram pessoas mortas.

Nos dois pisos entra-se em salas, sem portas, que magneticamente nos levam a vitrinas que protegem o que ninguém conseguiu proteger durante 4 longos anos. Vidas. E é aqui que percebemos que este não é um museu igual aos outros e que os olhos vão fixar o vidro com incredulidade. Quase sem pestanejar.

A explicação continua com uma maqueta de uma câmara de gás e de um crematório. De seguida descobrimos que reciclar não é uma novidade do final do século XX. Um judeu grego que num dia vestia umas calças, passados alguns dias era calças vestidas por SS’s. Um anão ou uma criança que num dia comia um pão, era passados alguns meses o trigo que fazia a carcaça que uma prisioneira comeria ao pequeno-almoço. As cinzas recolhidas no final da cremação eram misturadas com outros materiais e transformavam-se em roupas e acessórios. As cinzas recolhidas no final da cremação eram fertilizantes que adubavam os campos e mais tarde alimentavam as bocas esfomeadas dos prisioneiros e as barrigas satisfeitas dos guardas.

E a esferográfica não precisou de escrever nada disto, porque há coisas que o cérebro nunca vai esquecer.

Lukas Lipinski falava e observava-nos. Neste bloco ninguém tinha perguntas, porque não havia espaço entre tentar entender o que estávamos a ver e tentar questionar o que estávamos a ver. Nós perdíamo-nos dos olhos dele, porque os nossos precisavam era de olhar o que era quase impossível de perceber.

Depois mais uma sala e os ombros caiam mais um pouco. Malas, milhares de malas. Com o nome, a data de nascimento, o número do prisioneiro e uma referência quando se tratava de crianças. Nas malas vinham os mais valiosos pertences dos prisioneiros e a sensação de que a viagem que estavam a fazer não seria a última, apenas uma que os iria levar a outro local para trabalharem, talvez serem explorados, escravizados, mas não mortos. A história era sempre a mesma. Quando obrigados a deixarem para trás as suas casas era-lhes apenas dito que iam ser realocados noutro lugar. Chegados a Auschwitz pediam que escrevessem todos os dados de identidade, pois mais tarde reaveriam os seus bens. A mentira era repetida todos os dias.

A mala que podem ver na fotografia acima é de uma criança que morreu nos braços da mãe com apenas alguns dias, meses ou no máximo um ano de vida.

Mais uns passos à frente vemos o fim dos passos de milhares de pessoas. Quando os Aliados tomaram o campo, foram encontrados dezenas de milhares de… tudo! Sapatos, próteses, óculos, pentes, escovas de dentes, casacos, chaves, etc, etc, etc. E tudo isto nós vemos no bloco 5. Inclusivé 2 toneladas de cabelos! Menos de um terço das 7 que foram encontradas pelos aliados.

Vou ficando para trás. Quero ficar mais um pouco a tentar digerir tudo aquilo. Pelos auscultadores vou ouvindo Lukas Lupinski a falar, mas sei que já está no andar de baixo. Como posso eu sair dali (como pode alguém sair dali) e deixar todo aquele absurdo ali fechado em vidro e em silêncio? Dois minutos depois tive que me resignar e seguir. Para perceber, mais à frente, que afinal ainda havia muito mais absurdo para ouvir e ver.

O local onde a maioria destes objectos, presentes no bloco 5, se encontrava era um armazém a que os prisioneiros chamavam de Canadá, a terra dos sonhos e das riquezas. Trabalhar nessa parte do campo era o objectivo de todos, pois era a oportunidade de tentarem apoderar-se de objectos que servissem de moeda de troca para… tudo! Mais uma vez.

Num campo de concentração tudo falta, logo tudo serve de moeda de troca para, por exemplo, uma simples colher. Um pedaço de borracha para fazer de sola de sapatos. Um pedaço de pão. Para o que nem sequer a nossa mais alargada imaginação poderá imaginar.

Mais um vez fora dos blocos continuámos para aquela que foi para mim a pior parte da visita a Auschwitz-Birkenau. Bloco 11!

Bloco 11

Quando voltei da Polónia e muitos me perguntaram como foi a minha visita a Auschwitz, a resposta era invariavelmente a mesma: indescritível! E de seguida começava a descrever tudo o que tinha visto, ouvido e lido. E se me voltarem a perguntar hoje vou dar a mesma resposta. Não é nenhuma contradição. O que quis e quero dizer é que o que se sente em Auschwitz é assombroso. Foi-o para mim principalmente por causa do bloco 11, chamado de Bloco da Morte.

Deixemo-nos de mais suspense. O bloco 11 de Auschwitz é a câmara dos horrores de todo o campo de concentração. E perguntam vocês: Como assim? Então e as câmaras de gás e os crematórios? Pois, as câmaras de gás eram naturalmente  um lugar de morte massiva e logo nada idílico. No entanto, o bloco 11 e o seu pátio apuraram engenhosamente as torturas física e psicológica.

Os cerca de 20 metros de parede do corredor do rés-do-chão estão cobertos com fotografias de prisioneiros de Auschwitz. As diferenças entre as centenas de rostos pendurados na parede são praticamente… nenhumas. Todos vestem o famoso fato às riscas, todos estão com uma expressão inexpressiva, de quem não sabe bem o que está ali a fazer, todos estão com o cansaço estampado na cara e todos, imagino, só pensam em como sair dali. Um cabelo mais comprido, uns olhos maiores ou uma boca mais delineada são as poucas diferenças quase invisíveis. Porque tudo o que vemos é confusão naqueles rostos.

As salas que ladeiam o corredor têm feno no chão e as casas de banho são escuras, num escuro de sujidade e de uso que o tempo lhe deu.

As escadas fazem-nos descer a uma cave onde, com um pouco de imaginação, se conseguem ouvir palavras de agonia. Lá em baixo encontramos a Dark Cell, a Starving Cell e as Standing Cells.

Dark Cell – Os prisioneiros eram colocados numa cela que era um cofre-forte à prova de vida. Aqui morria-se de falta de ar. Demorasse o tempo que demorasse.

Starving Cell – Uma sala com 10 metros quadrados onde se acumulavam 40 corpos até que, um por um, aos poucos, fosse morrendo de fome.

Standing Cells – 4 celas de 1 metro quadrado cada, onde 5 prisioneiros, depois de um longo dia de trabalho, rastejavam para dentro de cada uma das celas e onde só tinham espaço para estar de pé. Toda a noite.

E foi nas Standing Cells que eu pensei: Já chega! Imaginar que naquele ínfimo metro quadrado se apertavam 5 pessoas envergonhadas, sujas, esfomeadas e que acabavam a tortura da escravidão do dia de trabalho a tentar sobreviver mais um dia, na esperança que no seguinte tudo fosse diferente, foi o fim da minha tentativa de perceber o que ali se tinha passado.  Acho que naquele momento deixei de me interrogar sobre Auschwitz. Saí dali de cabeça baixa, com os olhos a pedirem para ser tapados para que se pudessem expressar.

Uma mão de afago tocou-me no ombro. Lukas Lipinsky apareceu uns dois minutos depois no pátio das execuções, ao lado do bloco 11, onde eu já me encontrava. Trocámos duas frases e depois continuou a olhar para mim como quem diz: Tenho de continuar a visita. Eu sorri timidamente como quem diz: Eu sei. Continua. E ele continuou.

À nossa frente estava uma parede cravejada de balas e ao nosso lado dois postes encimados com ganchos. Todas as semanas eram ali mortas e desmembradas pessoas, quase aleatoriamente. Era preciso arranjar espaço para as “remessas” que todos os dias chegavam ao campo.

O Bloco 11, contando com o pátio das execuções, é composto maioritariamente por paredes. Não há lá cabelo, não há lá nenhuma mala, nem nada do que tínhamos visto antes no Bloco 5. Mas, na minha opinião, há uma sombra muito maior. Talvez porque me “dei” mais a este espaço e porque vinha a acumular toda a informação do que se tinha passado nos outros espaços anteriores.

Auschwitz I estava quase todo visto. O fim da visita acaba no crematório, que foi reconstruído pelo Museu. A pausa de 10 minutos serviu para que um chá aquecesse momentaneamente o corpo e de seguida um autocarro levou-nos a Birkenau, para mais uma hora e pouco de desumanização.

(continua…)

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One Comment

  1. Fernando Silva
    15/05/2019
    Reply

    O nível tão baixo a que a humanidade chegou. Horrivel

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