Auschwitz – o ânus do mundo

Não nos tivessem incutido que o inferno é quente e diríamos que estávamos no centro dele. Fevereiro deste ano chegou à Polónia, como a muitos outros países do norte e leste da Europa, com uma onda de frio glaciar. Se por norma o inverno já é rigoroso, com temperaturas a atingir os oito, nove e dez graus negativos, os menos quinze de máxima e menos vinte de mínima congelaram os termómetros. E até os polacos, habituados a meses difíceis, sentem frio. É uma questão de hábito. Isto não costuma ser sempre assim. Este ano está muito mais frio, respondeu-nos um cracoviano quando perguntámos como conseguem viver com tanta neve, gelo e temperaturas tão baixas. Um outro chegou-nos mesmo a dizer que para ele seria muito difícil viver com mais de doze ou treze graus célsius e acrescentou: Ouvi dizer que em Portugal está calor por esta altura!Sim, respondi-lhe. Suponho que catorze graus em Fevereiro seria um Inverno bem estranho para grande parte dos polacos.

Viajar com estas condições pode não se tornar nada agradável e pouco prático. Mas ir a Auschwitz não é propriamente turismo.

A Polónia nunca me chamou para a visitar. Talvez porque nunca soube muito mais do que generalidades sobre ela: a guerra fria, o comunismo, Lech Walesa, Papa João Paulo II… Sendo que dentro destas reticências estava toda a minha única vontade de pisar tal solo: Tenho de ir a Auschwitz!. Tinha, porque tinha, porque sou atraída pelo incompreensível. Porque tenho que pelo menos tentar entender. Porque tenho que me aproximar o mais possível, do que é muitas vezes impossível de aproximar. E tinha de lá ir na pior altura do ano, pelo menos na pior altura meteorológica do ano. E fui. E vim… a pensar que teria de voltar.

Voltar porque não cheguei a compreender. Voltar porque não quero esquecer o que senti. Voltar para tentar mais uma vez perceber o que se passou. Voltar para ouvir testemunhos reais, para aprender o real significado de algumas palavras. Em Auschwitz aprendi que existem palavras que ganham dimensão e real significado quando são sentidas e compreendidas em contextos diferentes daqueles que nos rodeiam.  Eu, por exemplo, dificilmente voltarei a usar a palavra DESUMANIZAÇÃO. Assim, como quem a diz.

Aqui o que arrepia não é o frio, mas a frieza com que se construiu o mais mortífero campo de extermínio da II Guerra Mundial.

A História de como no início do século XX tudo parecia compor-se numa Europa em guerra durante séculos, dessa não vou falar. Mas algumas personagens que daí para a frente, com a sua Loucura da Normalidade (livro de Arno Gruen, que aconselho vivamente), reviraram nações e condenaram milhões de vidas, fosse pela própria morte, fosse pela consequência da guerra, essas com toda a certeza aparecerão por aqui. Doutra forma não poderia deixar de ser. Foram e são nomes que nunca poderão ser esquecidos.

Ovos, Lukas Lipinski e Hugo Boss

Chegar a Auschwitz é chegar a uma qualquer outra cidade. Saímos da camioneta e temos casas, restaurantes, igrejas, carros, cafés, estradas, semáforos, pessoas, animais… Paris tem uma Torre Eiffel, o Cambodja tem Angkor Wat, o Perú tem Machu Picchu, Roma um Coliseu, o Porto tem uma Ribeira, Oswiecim (Auschwitz em polaco) tem um campo de extermínio da Segunda Guerra Mundial (SGM). Ou melhor, na realidade o que tem é um museu que lembra a todos o que se passou naquele mesmo lugar há 70 anos.

Ali foi lugar de morte e de mortos. Dos que respiraram muitos anos e ali foram parar para morrer, dos que apenas tiveram meses para ouvir a voz da mãe e ali foram parar para morrer, dos que estudaram e se tornaram génios para ali irem ser escravizados e morrer, de criminosos políticos alemães que levaram a riqueza em malas que pousaram naquele campo com a desculpa de um banho… que os ia levar a morrer, de judeus polacos  que viviam a apenas dezenas de quilómetros e que em apenas alguns minutos foram ali parar para morrer… Sim, ali foi lugar de morte e de mortos, tudo isso já eu pensava saber. Mas não sabia! Aliás ainda hoje não sei se se matou mais ou se se morreu mais!

Como qualquer outro museu, entre muitas outras coisas, tem bilheteira e uma cafetaria/restaurante. Entrámos neste último porque o pequeno-almoço já tinha sido quase todo digerido e o estômago reclamava mais substância. Além de que a visita duraria mais de três horas, com apenas uma pausa de cerca de 10 minutos. Pedimos o que queríamos e sentámo-nos a comer. Lembro-me que entre entornar açúcar, comer ovos e rirmos sobre qualquer coisa  pensei: Estou em Auschwitz! E estar em Auschwitz a comer ovos pareceu-me surreal. A ânsia por ali chegar tinha-me feito esquecer que ali estava, no lugar que Primo Lévi descreveu como o local de onde nenhum Homem alguma vez poderia sair ainda Homem.

Auschwitz são na realidade 3 espaços separados por alguns quilómetros – Auschwitz I, II e III ou Auschwitz, Birkenau e Monowitz, todos envoltos em cerca eléctrica, que não tão poucas vezes serviu de utensílio de suicídio a prisioneiros. Qualquer pessoa pode visitar Auschwitz/Birkenau gratuitamente (Monowitz não se encontra aberto ao público, já praticamente não existe), no entanto pareceu-me impossível tentar perceber fosse o que fosse que ali se passou sem as palavras de um especialista. Lukas Lipinski é um nome que nunca mais vou esquecer. Aliás, acho que a vontade de querer voltar àquele lugar se deve em parte a ele, ao nosso guia. Foi também ele que me fez sentir mais do que esperava sentir.

E sente-se logo quando se entra pelo famigerado portão Arbeit macht frei(O trabalho liberta-te). À nossa frente sucedem-se os edifícios em pedra, chamados blocos, que em grupos fazem quarteirões de alojamento de  2 estrelas do terror. E a história começa a 14 de Junho de 1940, com a máquina de guerra orquestralmente a trabalhar em várias frentes. Em Paris, Hitler fazia marchar as suas tropas pelos Campos Elísios em direcção ao Arco do Triunfo e a Auschwitz chegavam os primeiros prisioneiros. Os primeiros de cerca de UM MILHÃO E QUINHENTOS MIL que se calculam ter morrido em Auschwitz I, II e III.

São mais de 40 blocos que estavam destinados a abrigar experiências ginecológicas, torturas, risadas em reuniões de altos comandos das SS, ossos que dormiam apertados contra ossos que já tinham sido cobertos por carne e gordura, cinzas que já tinham sido ossos que tinham dormido apertados contra ossos que já tinham sido cobertos por carne e gordura… Temos o Bloco 24 fechado, o 27 também fechado e o 16 também fechado. Lá dentro só podemos imaginar o que se terá passado. No 10 sabemos que centenas de mulheres foram usadas como cobaias em experiência de esterilização. As que morreram não o fizeram em vão, pois os seus corpos serviram para realizarem autópsias, em nome da louca pesquisa científica alemã.

Pelo meio vimos pátios de execução pública e privada. Paredes cravejadas de balas que trespassaram ou passaram ao lado de corpos em pé num segundo e no chão no seguinte. Vimos ganchos onde  cordas penduradas desmembravam braços ou enforcavam cabeças de quem pagava uma sentença pelo crime dos outros. E com crime quero dizer fuga, ou tentativa de fuga. Cerca de 800 tentaram, 144 conseguiram. Por cada um destes cerca de 950, morreram 10 prisioneiros num pim-pam-pum de morte. Arrepia um pouco, mas são palavras, números e utensílios que só ganham dimensão nos blocos 5 e 11.

A maioria dos blocos em que entramos estavam bem diferentes do que poderíamos ter encontrado há 70 anos. Apenas o número 11 estava conservado tal e qual como na SGM. Mas mais à frente recuperaremos as 4 mais infernais paredes de Auschwitz, nem superadas pela câmara de gás ou o crematório. E também falaremos sobre aquele que é para muitos o mais emotivo dos edifícios do Museu de Auschwitz, o Bloco 5.

Houve muita coisa que não vimos nem ouvimos, como os Volkswagen que transportavam muitas das SS, como as fardas Hugo Boss que tão bem assentavam nos corpos das SS, como os seguros que a Alianz realizou aos campos de Auschwitz e Dachau, como todos os aparelhos Siemens que equipavam os blocos. Não os vimos nem ouvimos, mas foram-nos contados e/ou relembrados, como a quem diz que esta não foi uma guerra feita com vendas nos olhos de milhões de pessoas.

Os passos entre as saídas e entradas dos blocos foram dados aos poucos, com pausas para ouvirmos Lukas Lipinski na voz mais cerimoniosa que eu já ouvi, a quase soletrar cada letra, na esperança de que quem o ouvia saísse dali com uma percepção clara do que aquele local tinha sido. Ele passa ali os dias, a contar as mesmas estórias, vezes e vezes sem conta, e nem por isso se tornou uma máquina, onde o playpause e stopmonocordizariam o espírito. Mais tarde perceberia porquê.

(continua…)

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