Comprei umas meias em Besiktas

Já não me lembro bem porquê. Se porque achei que ia precisar de mais ou se porque as que tinha calçadas me estavam a apertar os pés. Quase que jurava que tinha sido  por esta última razão,  porque tenho a sensação (não é uma memória lúcida e nítida, mas mais uma névoa que não sei distinguir se recordação ou imaginação) que as calcei logo após a compra. Como é possível que não tenha a certeza absoluta do que estou a escrever? Devia ter anotado mal se deu o acontecimento. Pelo menos dele em si lembro-me. Rua Ihlamudere, por volta das 13h50, uma banca (uns caixotes com um cartão por cima) em que um homem vendia apenas meias. E todas escuras, pretas e azul-marinhas. Lembro-me como se fosse hoje.

Em Besiktas há escadarias curiosas, daquelas que vão dar a casas escondidas e para as quais não deveríamos espreitar em sinal de respeito pela privacidade de quem lá mora. Lembrem-se disso.

Em Besiktas existe muito rio na margem.

Em Besiktas os homens falam com sapatos, como se fossem o Agente 86, ou Maxwell Smart, da série Olho Vivo. Mas como isto é bairro de futebol, na realidade eles falam com chuteiras. No meio da rua. Como se da coisa mais normal do mundo se tratasse. Não se ouve o que responde a chuteira, mas dezenas de pessoas passam enquanto decorre a conversa e ninguém parece achar algo estranho naquele cenário.

Nós pensamos que sabemos pronunciar a palavra Besiktas, mas não sabemos. E é sempre importante termos isso em mente. Porque se a disserem e não vos compreenderem, não fiquem com cara de parvos a olharem para a pessoa a pensar que a parva é ela, porque vocês estão a dizer Besiktas no mais perfeito turco, com o sotaque mais besiktiano que existe e até com os trejeitos de quem ali vive praticamente há 30 minutos. Desenganem-se! Nós não sabemos pronunciar a palavra Besiktas.

Besiktas é um pouco longe. Temos de andar muito para lá chegar. Se formos a pé. Eu não fui a pé. Eu não sou estúpida. Eu fui de avião.

Em Besiktas atira-se muito gelo para cima dos peixes. Faz muito calor. Mesmo à sombra. E é por isso que os peixes precisam de gelo. E as pessoas que lhes atiram gelo, homens – só homens atiram gelo, não vi nenhuma mulher nem a atirar gelo, nem a tomar conta dos peixes – parecem conhecer todas as outras que ficam a ver o gelo a cair nos peixes. Parecem-se conhecer todas umas às outras. Não que perceba o que dizem, mas os gestos traduzem confiança. E calor. Acho que ali, naquele momento, as pessoas queriam ser peixes. E se calhar estamos todos a olhar para eles com inveja.

Tudo o que vos conto é verdade. E as meias de algodão são de boa qualidade. Se passarem por lá, comprem umas.

 

 

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