Dublin, frio e cerveja

9 de Março 2018 – 12:43h

Estou em Dublin pela primeira vez, mas parece que aterrei na Escócia. À minha volta estão centenas de kilts com homens lá dentro. Estão animados. Os homens, não os kilts, embora ondulem ambos ao caminhar. Os primeiros porque bebem cerveja e dançam, os segundos porque está vento. Os escoceses também cantam. Cantam todos ao mesmo tempo e riem alto, muito alto enquanto cobrem o meu campo de visão. Gostava de poder olhar para mais ângulos, mas a felicidade deles não permite. No shuttle que nos leva do aeroporto ao centro da cidade entornam cerveja e percebo que há ali pessoas que desaprovam aquele espectáculo gratuito. Eu agradeço a boa disposição com sorrisos.

9 de Março 2018 – 19:43h

É sexta e está frio. E se há muita gente na rua em trajectos cruzados, parece haver outra tanta sentada a beber cerveja. Provavelmente hoje mais do que ontem, porque é sexta e talvez mais do que na semana passada, porque não nos esqueçamos dos escoceses. É aliás impossível. Estão por toda a parte, mas a esta hora mais dentro dos pubs. E eu sabia da cultura pubiana, mas nunca a tinha visto ao vivo e a cores como aqui. Os pubs estão porta sim, porta sim e todos eles cheios. Sento-me no Dame Tavern e sou adoptada pela mesa do meu lado esquerdo, composta por 8 irlandeses com mais de sessenta e setenta anos. Não são dubliners, mas de muito perto (confesso que não percebo o nome da terra) e já há muitos anos que de 15 em 15 dias vêm ao Dame Tavern. Querem saber de onde sou e porque estou sozinha. Do meu lado direito está um casal. Ele caucasiano com o braço por cima do ombro dela, ela asiática de perna cruzada. Ambos bebem Guiness (como aliás todos à minha volta), mas não falam. Nunca. Não são mudos. Só não falam um com o outro.

Há sempre muitas canecas a circularem e a música ao vivo faz-me ter de berrar para que me ouçam.

10 de Março 2018- 17:38h

Viajar com apenas mala de mão só tem vantagens. Até encontrarmos uma das nossas perdições, livros em segunda mão. Estou em frente a uma Oxfam Bookstore, a pensar se entro. Claro que vou entrar, impossível não o fazer.

10 de Março 2018- 18:26h

3 livros. 2 de capa dura, quadrada, larga e pesada. 1 de capa dura, mas mais leve. €11. Suspeito que amanhã comprarei mais. Terei de deixar para trás um par de botins e chinelos de quarto e tudo o que a necessaire tem para que possa levar os livros na mala. Uma vez, num aeroporto de Londres pediram-me para abrir a mala e eu pedi “cuidado, por favor”. Quando a funcionária correu o fecho e a abriu, exclamou de olhos arregalados “Tu sabes fazer malas”. Naquele momento não me podia sentir mais orgulhosa. Estamos a falar de alguém cujo trabalho é abrir malas todo o dia e revistar o conteúdo das mesmas. Tenho a certeza que aquela senhora já viu coisas que preferia nunca ter visto e cheirou outras tantas impossíveis de esquecer. Pensei para mim mesma “Nunca vais ganhar um Nobel da Literatura, mas sabes fazer malas como poucos.” No regresso das viagens, as malas são os meus puzzles preferidos, aliás o único.

11 de Março 2018 – 09:32h

Domingo. Autocarro. Howth. Natureza. Chuva. Escorregar. Thriller. Morrer.

Estou numa das vistas mais famosas de Howth e quero percorrer o trilho junto ao precipício. Mas sou demasiado desastrada. Fico a olhar ao meu redor uns minutos, a imaginar como posso evitar uma queda caso percorra o trilho. Não encontro solução. Bem pelo contrário, penso numa gaivota que me atacará e enquanto me tento defender das suas bicadas ando às voltas, recuo e escorrego até ao mar. Penso que vou torcer o pé e em vez de voltar a equilibrar-me imediatamente, vou cair por causa da chuva miudinha, perder os sentidos quando bato com a cabeça numa pedra e uma rajada de vento me empurra precipício abaixo. Pronto. A ideia do trilho é simplesmente estúpida e inconsciente. Vou descer até à vila pela estrada principal. Está decidido. Viro-me e dirijo-me para o caminho seguro. Passa por mim um homem com um cão na direcção do trilho. Paro e espero para ver se se vai mesmo aventurar pelo caminho suicida. Apetece-me gritar-lhe “Não vá por aí, há gaivotas assassinas e pedras serial killers.” Ele continua sempre a descer. Talvez esteja apto a uma graciosidade serena que o afaste de qualquer grito munchiano pela encosta abaixo. Porque ali é tudo o que vejo. Isso e Hitchcock.

P.S – Um dos jogos da 4ª ronda do torneio de rugby das Seis Nações disputou-se este fim-de-semana, em Dublin. Opôs os verdes aos azuis. Qualquer pessoa pensaria que os escoceses tinham ganho o jogo. Ao fim e ao cabo grande parte da animação da cidade viveu-se à volta deles. Perderam 28-8.

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