Richmond upon Thames e a homenagem à vida

Todos poderíamos ser um banco. Ou veados. Eu por exemplo seria perfeitamente feliz ao ser um banco ou um veado em Richmond upon Thames. Mas comecemos pelos bancos. Não daqueles onde se guarda dinheiro, mas dos que sentamos a pensar. Porque nos bancos para-se. Simplesmente. Não necessariamente para pensar. Mas para-se. Nem que seja para alongar as pernas por breves segundos, ou para apertar os cordões que precisam de dois nós, porque na realidade nunca os soubemos apertar correctamente. Há uma pausa, mais ou menos longa. É esse o propósito. E se nessa acção, a fizermos de rabo sentado, então mais bem saberá o propósito. E mais abertura haverá para juntarmos à pausa uns olhos de observador e um cérebro de reflexão. Talvez por isso os britânicos gravem os nomes dos que mais gostam em bancos de madeira no meio de praças, jardins, ao longo de margens e em frente ao mar. Para pensarmos, nem que seja por breves momentos, na vida.

John July, ou Jack como todos o tratavam, morreu aos 95 anos. Mas… quem era Jack? Não sei. Sei que foi alguém que outros alguéns não querem esquecer. O nome dele está gravado num banco de madeira na margem do rio. Uma homenagem repetida ao longo da vila a centenas de outros nomes, em dezenas de outros bancos. É quase impossível não parar em todos para tentar imaginar quem eram aquelas pessoas.

Jack morreu em Richmond upon Thames. Era uma pessoa feliz e percebe-se porquê. Vivia em Richmond. Estamos apenas a 40 minutos de Londres, debaixo de um sol de Novembro que não podia brilhar mais, quase como quem diz que este é um local privilegiado. Os pubs e restaurantes perto do rio estão cheios à hora de almoço. Depois, praticamente não se ouvem motores nas ruas e quase não se vêem bicicletas. E os sorrisos de quem passa parece que nos tocam. A minha retina e o meu hipocampo parecem ter criteriosamente escolhido rostos de terceira idade para trazer de recordação. Não creio que não me tenha cruzado com gente mais nova, mas foram talvez os sorrisos com mais prática que se tornaram os mais memoráveis.

Percorro uma boa parte da margem do Thames que ali passa até chegar ao maior parque de Londres. Richmond Park.

Aqui os veados podem ser assustadores. Não podem, são! Mais os que parecem pesar o mesmo que um elefante, mas que sentam majestosamente num caminho de terra e quase os ouvimos ordenar uma vénia à sua passagem. E não esqueçamos os seus chifres. Alguns com envergadura suficiente para trepar e observar a Terra lá de cima. “Estás a exagerar!”, dizem vocês. “Não estou!”, digo eu. E acrescento “Não me importava nada de ser veado aqui.” Porque Richmond Park é selvagem. Os canteiros e os esquilos fofos que caracterizam St. James Park, e outros parques da central Londres, ficaram aí, na central Londres. Aqui há campos sem fim com veados que impõem respeito. Ao ponto de me fazerem parar, recuar alguns metros e esperar que alguém se atrevesse a passar primeiro… E alguns minutos depois lá passaram uns “richmondenses”, sem parecer aperceberem-se do tamanho daqueles bichos a uns escassos 20 metros.

Richmond upon Thames parece ser mais azul do que Londres e, aparentemente, mais feliz. Talvez porque por ali o Thames é mais estreito, com menos barcos e menos poluição, com mais gente disposta a sorrir e parar. Nem que seja para apertar os cordões.

P.S. – Para além de bancos e veados, Richmond upon Thames é uma típica vila inglesa charmosa, onde se pode visitar o Royal Botanic Gardens, edifícios históricos como o Hampton Court Palace, ou tentar espreitar para dentro da casa de Mick Jagger. E claro, beber e comer nos típicos pubs.

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