Dublin – os traidores e os mártires

Apontei a câmara, disparei e ele disparou em imediata resposta No pictures! num tom irritado. Levantei a mão direita num misto de sinal de cumprimento e num pedido de calma e pedi desculpa. Nenhuma sinalização à volta indicava que não podia tirar fotografias. Pelo menos que eu visse. O local não é sagrado e não me pareceu que pudesse estar a importunar o trabalho do homem. Mas respeitei o pedido/ordem.

Sem saber estava a seguir as pegadas dos que em 1916 tomaram o General Post Office (GPO) e o fizeram quartel-general da Eastern Rising, a revolta irlandesa pela independência da Irlanda. Que brava sou a apontar uma objectiva a um guichet (adoro a palavra guichet. Já não tanto guiché.) de um funcionário dos correios na esperança de registar um momento glorioso do proletariado irlandês. Tal e qual Patrick Pearse, James Connelly e tantos outros a apontar as espingardas aos soldados ingleses há mais de um século. Tal e qual. Ou nem tanto assim.

O edifício é imponente. Este sim, depois de reconstruído ficou tal e qual o original. Continua a ser a sede dos correios irlandeses e também, desde 2016, aquando das comemorações do centenário da Eastern Rising, museu, o GPO Witness History, onde aconselho uma visita. Toda a exposição dos factos desde a pré-Home Rule (a pobreza, as tentativas de revolta, as negociações), passando pelo desencadear das acções da Eastern Rising até às mortais, mas também esperançosas, consequências da revolta está muito bem estruturada e sai-se dali pronto para o exame de história.

Há em Dublin um outro edifício que completa a história do GOP. A Kilmainham Gaol, a prisão onde os rebeldes se tornaram mártires. Os irlandeses têm desde 3 de Maio de 1916, 9 dias depois da rebelião ter início, um agradecimento a prestar aos ingleses. Foi, em parte, graças a estes, e à sua demanda pela ordem com as execuções dos rebeldes, que a Irlanda conseguiu a sua independência. Nesse dia 3, 16 homens entraram em Kilmainham Gaol como criminosos aos olhos da lei colonial e saíram como mártires aos olhos de milhões de irlandeses que ainda apoiavam o rei.

Muitos de nós já vimos Kilmainham Gaol, mais que não seja em filmes, como Em Nome do Pai, em Michael Collins ou The Wind That Shakes the Barley. Mas não sentimos o frio daquelas paredes, nem percepcionamos quão estreitos são alguns corredores, ou a quase inexistência de luz em algumas celas. A visita é guiada e tal como em Auschwitz, também aqui tive a sensação, embora não tão expressiva, que o guia não era um papagaio a relatar factos. No local onde sucederam as execuções, o tom de voz mudou para uma solenidade que parecia querer prestar homenagem aos que ali morreram.

A única homenagem que me fez sentido fazer à luta pela independência da Irlanda foi visitar estes dois locais e perceber um pouco mais dos acontecimentos que levaram à proclamação da República da Irlanda. Quando passarem por Dublin, ouçam também estas histórias.

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