Wadi Rum – A fascinante permanência do deserto

Há escorpiões por aqui?, perguntei mais com curiosidade do que com medo. Nayil sorriu, abriu os braços, olhou à volta e disse, estamos no deserto, claro que há escorpiões! Mas é muito raro vê-los por aqui (no campo de beduínos). Tens medo de escorpiões? Respondi: Não me apetecia muito dormir com um! O jovem beduíno olhou para o seu smartphone, depois para mim e sossegou-me: Não te preocupes, vou-lhe mandar uma mensagem para não vir hoje! E ele não apareceu!

Sou uma amante do deserto, da aparente impossibilidade que nele existe. Adoro que ele me seja estranho e que a estrangeira em mim o deixe revelar-se sem que eu, ou ele, façamos alguma coisa. Adoro que fiquemos sozinhos, sossegados.

Por ali, pouco mais do que silêncio, umas dezenas de camelos, tendas beduínas, carochas (o animal, não o carro!), areia, montanhas, dunas e milhões de estrelas se pode encontrar. Numa vastidão desértica de 700 km2 de Património Mundial da Humanidade! A inquietude que no início do século XX levantou pó em Wadi Rum (leia-se Wadi Ramm), hoje só é possível ser imaginada. Isto é, se conhecermos a história de T.E.Lawrence, o exuberante, e muitas vezes apelidado de louco, oficial inglês, que ganhou notoriedade mundial com a interpretação de Peter O’Toole em Lawrence da Arábia. Hoje resta a permanência do deserto. A fascinante permanência do deserto.

Em Setembro, a manhã começa morna e a areia coberta por sombras de rocha, ou da tenda, está ainda fria da noite e relaxa os meus pés que clamam por liberdade fora das outdoor que os acompanham há uns dias. Mas em apenas duas horas já se prevê que elas vão ter de voltar a ser calçadas, porque a areia vai escaldar por volta do meio-dia! O corpo, esse que já sente o cansaço após 3 semanas de viagem, relaxa em tapetes coloridos e ensombrado por outros tantos. Mas depois subo a montanha que se encosta às minhas costas. Ali, àquela hora, ainda aguento bem o calor e pergunto-me o que raio estão dois camelos a comer, a algumas centenas de metros. A resposta é óbvia, provavelmente a tal aparente impossibilidade do deserto.

Obeid, o beduíno dono do campo onde estou alojada, liga o motor do jipe e, já acompanhada por mais dois viajantes, avançamos para 4 horas de exploração de Wadi Rum, à espera que o deserto nos receba bem. O calor avisa que aquilo é terra de natureza viva dura. E morta também. Os camelos podem passar meses sem beber água e as gigantes montanhas permanecem ali sem mexer há milhões de anos.

Paramos aqui e ali para tirar fotografias, para subir uma ou outra montanha, ou um ou outro arco. E seguimos em frente. Sim, porque no deserto, tudo parece ser em frente, apenas ziguezagueando pelos trilhos que os jipes já definiram na areia. E os traços humanos são praticamente só esses, apenas interrompidos pelo barulho de um comboio de mercadorias à distância, ou pelas ruínas da casa do Lawrence e alguns “meeting points” ao pôr-do-sol. Nessa altura, todos os turistas querem subir a uma montanha e contemplar a grande estrela a fugir e o rosa velho que a pedra assume com a luz dela. (Podíamos perfeitamente pertencer a uma seita de adoração à natureza que se chamaria “O homem branco que tira meia dúzia de dias no ano para apreciar a beleza e poder da natureza, mas que depois volta à cidade e se esquece dela com o corre-corre do dia-a-dia!”. Provavelmente, seria um nome demasiado comprido para a fachado de um prédio). Naquele momento todos pensamos: Não vás já Sol! Mas ele vai. E nós ficamos. Mais um pouco. E mais um pouco…

A magnificência da noite em Wadi Rum tem descrição, mas não passível de arregalar os olhos de incredulidade. Lamento, mas não tem. Para isso é preciso estar lá e senti-la. A Via Láctea faz-me lembrar que pobres mortais somos e que feliz eu sou por poder assistir a este espectáculo natural. Lá em cima o fogo brilha em pontos brancos, aos milhões, a milhões de anos luz. E de quando em vez, alguns deles apagam-se para sempre, mas não sem antes deixar um rasto no céu e na minha memória. A Lua não é convidada e ainda bem. Podemos vê-la quase todos os dias no nosso urbanismo. Ali só iria ofuscar o céu que só se quer pintalgado. Quando baixo os olhos, eles encadeiam-se com uma fogueira que aquece o sempre presente chá e os meus braços e pernas praticamente despidos. Fechar os olhos, seja para o que for, com um cenário destes por cima de nós, é praticamente impossível. Tanto que fui a última a deitar-me. Deixei-me ficar ali, mais uma vez, sozinha com o deserto. Mais um pouco. Mais um pouco. E mais um pouco… até não aguentar mais.

Sou uma amante do deserto! E de Wadi Rum!

(Via Láctea – foto de Maxwell Richie)

 

 

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